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A Dinamarca de cada um

página 4 / São José do Rio Preto, 29 de novembro de 2009 DIÁRIO DA REGIÃO

O que faz dos dinamarqueses o povo mais feliz do mundo?

Written by: Ariana Pereira

Se pudesse ser engarrafada e comercializada nas lojas, seria o sucesso absoluto de vendas. A verdade, porém, é que nem se sabe ao certo o que ela é: um sorriso, a casa dos sonhos, o carro do ano, o prato que lembra o almoço em família, encontrar um amor para a vida toda, os filhos, os amigos. O que é, afinal, a felicidade? Enquanto a maioria das pessoas tenta achar a resposta a essa pergunta, o psicólogo inglês, da Universidade de Leicester, Adrian White, resolveu pesquisar e encontrar, pelo menos, o lugar em que a felicidade mora. E achou. De acordo com o ranking elaborado pelo pesquisador, que visava mapear o bem-estar no planeta, o país mais feliz do mundo é a Dinamarca.

A pesquisa, que ouviu respostas de 80 mil pessoas de todo o mundo, utilizou dados da Unesco, da agência de inteligência americana, a CIA, da Organização Mundial de Saúde e algumas outras informações a respeito de 78 países. Foram feitas perguntas simples e objetivas que levaram à conclusão de que fatores como saúde, riqueza e educação são elementares para medir o nível de felicidade de uma nação.

Ainda que White tenha chegado a um resultado matemático, ele mesmo acredita que esses fatores escolhidos para medir o nível de felicidade não são os mais perfeitos. A Revista Bem- Estar procurou pessoas que têm alguma relação com a Dinamarca para responder: afinal de contas, o país é ou não é o mais feliz do mundo?

Entre os principais fatores apontados para que o povo dinamarquês seja feliz estão as condições financeiras do país. Os habitantes recebem do governo incentivos desde que nascem e são assistidos financeiramente até o fim da vida. O cônsul da Dinamarca, no Brasil, Rodrigo Serris Sampaio, conta que as crianças nascem recebendo apoio financeiro. “A partir do momento que a pessoa nasce recebe um valor a cada quatro meses, até completar 18 anos. Aquele valor básico nunca vai faltar. Uma mãe pode ter um filho sabendo que vai ter auxílio a vida inteira. Depois que completa 18 anos, o cidadão recebe um incentivo para estudar, por vários anos. Tem o direito de fazer um empréstimo com poucos juros.”

Educação

A segurança de ter um apoio financeiro faz com que as pessoas aproveitem melhor a vida, o que é, sem dúvida, um fator considerável para acrescentar felicidade a qualquer existência. Mas não é o suficiente. Educação é outro fator apontado pela pesquisa como uma garantia de felicidade. E, nesse quesito, mais uma vez, a Dinamarca é nota dez. Eric Ribeiro é conselheiro administrativo do Consulado Dinamarquês no Brasil. Ele afirma que, de acordo com os conhecimentos e experiência que tem a respeito daquele país, os estudantes universitários recebem incentivos na forma de empréstimo.

“Recebem algo em torno de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil. Quando começam a trabalhar, passam a pagar o empréstimo. Acredito que esse incentivo, pelo fato de minimizar os desafios da vida, tais como segurança financeira, segurança pessoal, dentre outros, possibilita um maior aproveitamento da vida. Tem-se mais tempo para se concentrar em coisas que dão prazer, o que, consequentemente, leva a um aumento da felicidade”, analisa Ribeiro.

Maternidade

Respeito às etapas da vida humana é mais uma estrelinha de felicidade para os que moram no país que tem 5,5 milhões de habitantes. Isso porque as mamães têm direito à um período de 6 meses a um ano de licença-maternidade remunerada para mimar os pupilos recémnascidos. “Cada caso é um caso. Mas normalmente, a licença-maternidade é de um ano. Claro que não são todos os patrões e empregos que permitem que se fique afastado por tão longo período, mas o governo oferece condições financeiras para isso”, conta a mineira Ludimila Lima, 25 anos, que mora na Dinamarca desde dezembro do ano passado.

E não são só as mulheres que assumem a responsabilidade de cuidar do mais novo membro da família. Paula Jota Pedersen, 29 anos, mora na Dinamarca há cinco anos, e conta que os meses de licença-maternidade não são apenas direito materno. Ela explica que esse período pode ser dividido com o pai, ou seja, no caso de um período de seis meses, o homem fica em casa três meses e a mulher outros três. “Além disso, existe a licença paterna, que é o direito que os homens têm de ficar duas semanas em casa, após o nascimento dos filhos.”

E depois que o bebê tiver de deixar o colo da mãe as creches estão à disposição da população e, de acordo com Ludimila, estão bem preparadas e equipadas para oferecer um serviço de alto nível. “O sistema funciona muito bem e a criança pode ficar nesses locais das 7 horas da manhã até as 18 horas. O governo financia uma parte e a família a outra”, conta Ludimila. “Toda criança dinamarquesa tem direito a ir para uma creche subsidiada pelo governo. Pessoas que ganham menos do que uma certa quantia pagam preços mais baixos. As creches são de alta qualidade e nem comida com açúcar pode entrar no cardápio das crianças, nada de leite achocolatado! A Dinamarca é um país onde se vê natureza por todos os lados, as creches levam as crianças para passeios diários em parques e pela cidade - os pais têm a certeza que os seus filhos estão sendo bem cuidados e não estão grudados em uma televisão”, completa Paula.

Pressões

De que importaria dinheiro, estrutura e apoio se não houvesse liberdade?

Há milênios o homem persegue o conceito do que é felicidade, embora não o tenha conseguido definir, tem a certeza, no entanto, que ser feliz está atrelado, indiscutivelmente, com a liberdade de ir e vir e ser. Para que a Dinamarca alcançasse a fama de ser o melhor lugar do mundo para se viver foi necessário que os habitantes se sentissem à vontade para ser o que quisessem ser. E na opinião de Paula o país não frustra os moradores nesse sentido.

“O estudo aponta os dinamarqueses como o povo mais contente do mundo, pois eles estão felizes com a vida que têm e com o que o país lhes proporciona. Um dos motivos apontados pela população pela felicidade no país é a falta de pressões sociais como casar, ter filhos, cumprir funções pré-estabelecidas. Além disso, não existe aqui a pressão de ter de se formar em certas profissões para ser alguém na vida. Claro que existe o status em algumas profissões, mas pelo motivo financeiro de qualquer profissão. A pressão de seguir uma carreira definida pela sociedade como sendo essencial para o sucesso não existe aqui. Isso em si já é uma grande liberdade e segurança. Ao contrário do Brasil, onde adolescentes de 17 ou 18 anos precisam escolher profissões, os dinamarqueses escolhem mais tarde. Isso para mim é o principal motivo pelo qual os dinamarqueses são felizes: escolhem a profissão pelos seus interesses e dons. As pessoas passam oito horas por dia trabalhando, se trabalham no que não gostam, há uma boa chance de serem infelizes”, analisa a brasileira Paula Jota Pedersen.

E por falar em profissão, a brasileira deixa a dica: a Dinamarca precisa de mão-de-obra qualificada em vários setores, como área médica, por exemplo, e abriu um programa de pontos, chamado Green Card Scheme, em que estrangeiros ganham residência com direito a trabalhar no país por três anos, prorrogáveis por mais quatro anos (mais informações em www.foreignersindenmark. dk).

Trabalho e casa

Ainda que o acesso à educação seja em larga escala na Dinamarca, o mercado de trabalho do país absorve a mão-deobra especializada no país. As taxas de desemprego são baixíssimas, o que proporciona a possibilidade de que os habitantes tenham as próprias fontes de renda, resultando em moradia e alimentação de qualidade ao alcance de todos. O cônsul Rodrigo Serris Sampaio afirma que os moradores da Dinamarca têm acesso a diferentes oportunidades de trabalho. O número de desempregados no país, atualmente, é de pouco mais de 113 mil.

Sampaio conta também que o custo de vida no país é bastante alto e as pessoas vivem em espaços pequenos. De acordo com ele, é muito difícil se deparar com moradias suntuosas, bem como com pessoas que vivem nas ruas. A falta de moradores de rua se deve ao fato de que os cidadãos dinamarqueses podem recorrer a subsídios do governo caso enfrentem dificuldades financeiras para bancar uma moradia. “Acredito que os que moram nas ruas fizeram essa opção. Uma vez que as pessoas que residem no país têm o direito a um auxílio moradia. Mas sempre há os que preferem não receber esse auxílio.”

Meio ambiente

O ambiente em que se vive também tem influência considerável no quanto alguém é ou não feliz. Por isso, os dinamarqueses são um exemplo de preocupação com o meio ambiente. É comum, de acordo com o conselheiro administrativo do Consulado Dinamarquês no Brasil Eric Ribeiro, que as pessoas optem pela bicicleta como principal meio de transporte. “Os dinamarqueses têm grande preocupação com o meio ambiente. Não somente por meio de iniciativas governamentais, mas ações individuais e constantes debates entre os indivíduos. A bicicleta é o meio de transporte mais comum na Dinamarca. É bastante normal locais em que o estacionamento exclusivo para bicicletas é maior que o estacionamento para carros”, diz Ribeiro.

Assim, nas poucas semanas em que o inverno rigoroso dá lugar ao calor ameno do verão dinamarquês, as bicicletas, que já são famosas pelas ruas, tornam- se dominantes das vias, de acordo com o cônsul dinamarquês no Brasil, Rodrigo Serris Sampaio. “Durante o verão, as pessoas são muito felizes, mas no período frio fica todo mundo trancado dentro de casa e o inverno é muito mais longo lá do que no Brasil. No calor, essa opção pela bicicleta proporciona algo muito legal.”

Ponto de vista

Com tantos atrativos assim, o mundo vai querer morar na Dinamarca, mas não é bem assim que funciona. A brasileira Paula Jota Pedersen afirma que existe, entre os dinamarqueses, preconceito com imigrantes muçulmanos e refugiados. E como consequência disso, continua ela, as leis de imigração estão se tornando mais rígidas. “A Dinamarca é um ótimo país para os dinamarqueses - agora para estrangeiros a aceitação deixa muito a desejar.” Apesar disso, a mineira Ludimila Lima assegura que, como estrangeira e mulher, ainda não se sentiu discriminada pelos cidadãos dinamarqueses.

Se a felicidade encontrou um lugar para morar na Dinamarca, o cônsul Rodrigo Serris Sampaio não sabe afirmar com certeza, mas sabe que as condições de infraestrutura e apoio financeiro oferecidas pelo país são diferenciais que possibilitam uma vida mais tranquila aos habitantes. “Não concordo muito com essa classificação de que as pessoas na Dinamarca são as mais felizes do mundo. Isso porque temos um inverno muito rigoroso e a felicidade depende de vários fatores, inclusive desse. Temos diversas e diferentes oportunidades, o que pode fazer muitas pessoas felizes. A vida é mais fácil de ser vivida na Dinamarca.” Ludimila concorda com o cônsul: a Dinamarca é um lugar que oferece boas possibilidades para uma vida de alto nível, mas para algumas pessoas pode não ser o país mais feliz do mundo. “Acredito que as condições de vida aqui são melhores que na maioria dos demais países do mundo, mas pelo que tenho visto não são suficientes para se fazer uma nação feliz.”

Na opinião de Paula Jota Pedersen, no entanto, como um conjunto, os dinamarqueses se sentem seguros e isso em si já faz compreensível o fato de lá os seres humanos estarem satisfeitos com o que têm. “Se uma mulher tem um filho com problemas, ela pode ter a certeza que o governo vai ajudá-la pelo resto da vida daquela criança e que nenhuma necessidade básica lhe faltará. Em caso de mães solteiras e em que o pai da criança não paga pensão, o governo paga por ele. Os pais não têm de se preocupar em pagar escolas ou universidades, são de graça e muito boas. Aqui se paga muito imposto, mas a Dinamarca, assim como Nova Zelândia e Suécia, tem uma das taxas de corrupção mais baixas do mundo. Em geral, os dinamarqueses acham que seus impostos estão sendo investidos na sociedade onde vivem, o que os torna satisfeitos também.”

A felicidade é um conjunto de fatores. Estabilidade financeira e uma sociedade que oferece estrutura para garantir segurança e saúde a todos os cidadãos contam muitos pontos na hora de dizer se uma pessoa é feliz ou não. Mas felicidade não é só isso. A medida dela, no entanto, é pessoal e morar na Dinamarca, no Brasil ou na China é apenas mais um fator. O ideal é que cada pessoa encontre seus próprios motivos para ser feliz. O que não pode é se cansar de procurar sempre. Portanto, a felicidade mora na Dinamarca, mas em você também.

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